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NOTÍCIA

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A coordenadora de Integração Local da Cáritas RJ, Karla Ellwein, apresenta a Plataforma Trampolim como exemplo de boa prática para promover a inserção social de pessoas refugiadas. Imagem: © PARES Cáritas RJ/Luciana Queiroz.

Cáritas RJ reúne refugiados no G20 Social para contribuir com declaração final do evento

Com apoio do ACNUR e do governo japonês, atividade promoveu debate sobre pobreza, desigualdade social e trabalho decente entre migrantes e refugiados no Brasil
Rio de Janeiro - Para muitos refugiados no país, escapar da pobreza extrema significa enfrentar desafios ainda maiores do que aqueles vividos pela população brasileira. Foi com esse alerta que a Cáritas do Rio de Janeiro, junto aos parceiros da Cáritas Suíça e do Serviço Pastoral dos Migrantes promoveu, na tarde do dia 15 de novembro, uma atividade autogestionada para dar voz ao público presente, incluindo cerca de 20 refugiados que lotaram a sala 9 do Espaço Kobra, no G20 Social. O objetivo era claro: discutir soluções para pobreza, desigualdade e trabalho decente, e incluir a pauta do refúgio na Carta entregue ao presidente Lula no dia 16 de novembro, último dia do evento. 

Intitulada “Troca de Conhecimentos e Experiências Sobre o Combate à Fome e à Pobreza”, a mesa contou com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) e começou com discursos de boas-vindas de representantes das duas agências, das organizações participantes e do Departamento de Proteção Social Especial do Governo Federal, seguida pela apresentação de boas práticas adotadas pela Cáritas do Rio, Cáritas Suíça e SPM, para a inserção social das populações refugiadas, como a plataforma Trampolim. 
Histórias de resiliência e luta por dignidade
​A abertura do evento foi marcada pelo depoimento de Robert Montinard, mediador do encontro e fundador da organização Mawon, que compartilhou sua experiência como haitiano deslocado pelo terremoto de 2010. Montinard destacou a urgência de legislações que reconheçam refugiados climáticos, pontuando que "ninguém quer ser chamado de vítima". 

Padre Manangão, representante da Cáritas RJ, destacou a longa trajetória da instituição no atendimento a pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, tendo os refugiados como um foco central em quase 50 anos. Ele ressaltou a atuação da equipe no advocacy para influenciar leis que promovam o acolhimento e a integração de pessoas refugiadas no Brasil: “Temos força de vontade para estar juntos nas discussões e construir soluções”, afirmou.

Mais de 130 milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar por guerras, conflitos, violações de direitos e desastres naturais. Com esses dados alarmantes, o Representante do ACNUR no Brasil, Davide Torzilli, começou sua fala, apresentando o Sumário Executivo que havia sido produzido num evento paralelo à Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, em Brasília no mês de agosto. Davide reforçou o apelo para que lideranças globais estejam dispostas a resolver os desafios enfrentados na atualidade, destacando que o deslocamento forçado contribui para o agravamento da fome e da pobreza, uma vez que geram conflitos e violência. “É um ciclo que precisamos quebrar”, declarou.
Plataforma Trampolim: inclusão de refugiados e superação da pobreza
Apresentada por Karla Ellwein, coordenadora de Integração Local da Cáritas RJ, a Plataforma Trampolim é um exemplo de boa prática na promoção da inclusão de refugiados e no enfrentamento da pobreza. Lançada em 2021 com o apoio do Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro (MPT-RJ), a ferramenta online conecta refugiados e migrantes a oportunidades de emprego e serviços autônomos, promovendo autonomia e integração.

Por meio da plataforma, os usuários podem cadastrar currículos ou divulgar serviços autônomos, enquanto empresas têm a chance de oferecer vagas ou capacitações. "A integração local é uma via de mão dupla. Tanto o país acolhedor quanto a população que chega precisam se adaptar", destacou Karla, enfatizando a necessidade de políticas inclusivas que favoreçam essa adaptação mútua.

Além da Trampolim, Karla mencionou iniciativas complementares como feiras de empregabilidade e workshops que preparam refugiados para o mercado de trabalho brasileiro. Entre 2019 e 2024, mais de 28 mil atendimentos e encaminhamentos de currículos foram realizados.

Sérgio Costa Floro, da Cáritas Suíça, reforçou a importância de abordar de forma integrada a migração, os meios de subsistência e os desafios climáticos, destacando esses temas como prioridades globais.
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Já Lana Vieira, do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), apresentou o modelo de Graduação Social, uma iniciativa que combina empreendedorismo e geração de empregos para retirar famílias da pobreza. "Não é possível gerar renda sem uma rede de proteção social e apoio psicossocial", ressaltou.
A vez e a voz dos refugiados
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O debate ao final da atividade reforçou o protagonismo da sociedade civil no acolhimento de refugiados e a urgência de políticas públicas inclusivas. Integrantes da equipe da Cáritas RJ, refugiados e o público geral contribuíram para enriquecer as discussões.

Clara, da equipe de Acolhimento, destacou o desafio da revalidação de diplomas estrangeiros, que limita o acesso de refugiados qualificados ao mercado de trabalho. Já a advogada Mariana alertou sobre a importância de documentações regularizadas para garantir acesso básico a direitos e evitar que refugiados caiam na pobreza extrema.

Aline Thuller, coordenadora geral do PARES Cáritas RJ, chamou atenção para a necessidade de assistência emergencial que assegure condições básicas, como alimentação e abrigo, antes mesmo do acesso às ações pela integração. “Cada vez menos temos espaços públicos disponíveis para acolhimento, e isso afeta diretamente a estabilidade mínima necessária para que refugiados possam estudar e trabalhar”, pontuou.

O venezuelano David reforçou a urgência da implementação de políticas de acolhimento específicas para a população LGBTQIA+. Juan Carlos, de 63 anos, relatou as dificuldades que pessoas como ele, com mais de 60 anos, enfrentam para entrar no mercado de trabalho brasileiro.

Apesar de possuir três profissões e ter feito um curso de barbeiro promovido pela Cáritas RJ, ele não consegue emprego. "Sem a Cáritas (RJ), eu estaria basicamente mendigando", desabafou, destacando a necessidade de políticas específicas para profissionais mais velhos.​
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Juan Carlos (primeiro da esq. para a dir., na segunda fila) destacou a dificuldade de refugiados de mais de 60 anos para conseguir uma recolocação no mercado de trabalho. © PARES Cáritas RJ/Luciana Queiroz.

​Karla, venezuelana radicada no Brasil há cinco anos e que hoje integra a equipe do setor Administrativo do Programa de Atendimento a Refugiados, declarou que a organização foi essencial para seu processo de integração, que incluiu suporte psicológico. Ela sugeriu a criação de cotas universitárias para refugiados.
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As demandas e propostas apresentadas no evento seguiram para compor a Carta entregue ao presidente Lula, simbolizando o desejo por mudanças concretas para uma população que enfrenta desafios imensos, mas segue lutando por seus direitos. No dia 16 de novembro, refugiados, migrantes e apátridas foram incluídos na declaração final da Cúpula Social. 
Texto e fotos: Luciana Queiroz
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